Cinco textos atrás, comecei essa série contando que a alfaiataria nasceu pra marcar quem tinha o direito de ocupar espaço. Hoje a gente fecha o círculo. É o quinto e último texto sobre como chegamos ao street tailoring, e é onde a história morde o próprio rabo.
No texto passado eu deixei dois rios correndo separados. De um lado, o skate: roupa justa, funcional, herdada do surfe, com a marca virando identidade de tribo. Do outro, o hip-hop: roupa larga, afirmativa, nascida da falta, com a rua reescrevendo o luxo e construindo as próprias marcas quando ninguém as fazia.
Este texto é onde os dois se encontram. E onde tudo que eu contei desde o começo volta pra fechar a conta.
O ponto onde os rios se encontram
Lembra da Stüssy, que apareceu de raspão no texto do skate? É ela que faz a ponte.
Shawn Stüssy começou nos anos 1980 em Laguna Beach moldando pranchas de surf e assinando cada uma com o próprio sobrenome, numa caligrafia de caneta grossa. Botou aquela assinatura em camiseta, short e boné e saiu vendendo do porta-malas do carro pela Califórnia. Só que a marca foi virando esponja: absorveu surf, absorveu o skate de Los Angeles, absorveu reggae, punk e o hip-hop que fervia em Nova York. Essa mistura toda, num nome só, é o que muita gente aponta como o embrião do streetwear.
E a Stüssy não ficou só na praia. Por volta de 1987, Shawn montou o que ficou conhecido como International Stüssy Tribe, uma rede de gente culturalmente influente em cada cidade grande do mundo, que recebia as peças e espalhava pelo próprio círculo. Um deles era o japonês Hiroshi Fujiwara, que levou aquilo pra Tóquio e ajudou a acender a cena de streetwear que hoje é referência mundial. Antes de a palavra "influenciador" existir, a lógica já estava ali.
Depois veio a Supreme, que eu também citei no texto do skate. Aberta em 1994 numa loja em Lower Manhattan, com o piso desenhado pra deixar skate circular dentro, ela era loja de skate, mas respirava hip-hop, arte de rua e atitude punk ao mesmo tempo. Era o encontro dos rios virado endereço físico. Você entrava e os dois mundos estavam ali, no mesmo lugar, sem pedir licença um pro outro.
A palavra que junta tudo
É mais ou menos aqui que "streetwear" deixa de ser um estilo entre outros e vira a língua principal.
Repara que streetwear nunca teve um inventor único, e é por isso que fica tão difícil desenhar sua fronteira. Ele é confluência: a função e a folga, o logo e a modelagem, o skate e o hip-hop, a praia da Califórnia e o Bronx, tudo escorrendo pro mesmo leito. Dos anos 1990 pra frente, essa língua parou de ser coisa de nicho e virou a forma como o jovem do mundo inteiro se veste. E aí acontece a parte mais interessante da história.
A volta pra alfaiataria
Volta lá no primeiro texto. Eu disse que a alfaiataria nasceu pra marcar quem tinha o direito de ocupar espaço, a roupa como sinal de poder e de classe. Durante décadas, a rua ficou do lado de fora dessa lógica, construindo a própria coisa a partir da margem. Até que a herdeira daquela alfaiataria, o luxo, percebeu que precisava da rua. E foi atrás.
O exemplo que mais me pega é o do Dapper Dan, o mesmo que eu contei que foi fechado em 1992. Em 2017, a Gucci desfilou uma jaqueta praticamente idêntica a uma que ele tinha feito lá em 1989 pra atleta Diane Dixon. A diferença é que a original usava o monograma da Louis Vuitton nas mangas e a Gucci trocou pelo próprio. Quando a Diane postou as duas lado a lado, veio a chuva de críticas. A Gucci, que a princípio chamou a peça de homenagem, acabou fazendo as pazes: levou o Dan pra Itália e, em 2018, abriu com ele um atelier no Harlem, o Dapper Dan of Harlem, apontado como a primeira loja de uma casa de luxo no bairro. O homem que teve a loja invadida pela polícia virou sócio da grife. Deixa isso assentar.
E não parou nele. Em 2017, a Louis Vuitton, a casa mais antiga de fazer mala de viagem, lançou uma coleção com a Supreme, a marca de skate de Nova York. Em 2018, a mesma Louis Vuitton nomeou Virgil Abloh, criador da Off-White e vindo direto do streetwear, como diretor artístico da moda masculina, o primeiro homem negro a comandar essa área da maison. Segundo o próprio CEO da Louis Vuitton na época, o pop-up de estreia dele faturou, nas primeiras 48 horas, cerca de 30% a mais do que a colaboração com a Supreme tinha feito. Um cara da rua sentado na cadeira mais alta de uma casa que nasceu vestindo a aristocracia.
O que isso quer dizer
Aqui eu preciso ser honesta, porque tem duas leituras e as duas têm razão em alguma medida.
Uma diz que a rua venceu: o que nasceu da margem hoje dita a moda de luxo, e quem foi ignorado agora está no comando. A outra diz que o luxo, ao abraçar a rua, também a domestica, transforma em produto caro o que era gesto de comunidade e esvazia o sentido pelo caminho. Eu fico com um pé em cada lado. Acho que a rua ganhou muito, e acho que uma parte da alma se perde toda vez que um gesto de necessidade vira item de vitrine de dez mil reais.
Mas o que interessa pra essa série é o encontro em si. O vocabulário da alfaiataria, construção, corte, intenção, se juntou com a língua da rua, identidade, autoria, presença. Quando essas duas coisas se misturam de verdade, sem uma engolir a outra, é isso que a Border chama de street tailoring: pegar o que a alfaiataria sabe sobre fazer roupa com propósito e o que a rua sabe sobre fazer roupa que diz quem você é, e costurar os dois na mesma peça. Sem fantasia de um lado nem prestígio emprestado do outro.
E é daí que a gente parte. Pra quem a moda nunca desenhou direito, pra quem não se vê na vitrine, com a intenção da alfaiataria e a verdade da rua no mesmo lugar. A história que eu contei em cinco textos não termina aqui. Ela continua toda vez que a gente corta uma peça nova.
Obrigada por percorrer esses cinco textos comigo. Um beijo e até a próxima!
Fontes consultadas: Wikipedia / "Stüssy" (ponto de partida, cruzado com a cobertura editorial abaixo) · The HIP Store — "How Stüssy Became the Godfathers of Streetwear" · finallyoffline — "The Stüssy Tribe Was the Original Influencer Network Before That Word Existed" · StockX News — "Supreme x Louis Vuitton: Beginning to End" (Kim Jones, 2017) · Quartz (qz.com) — "Dapper Dan, the original tailor to hip-hop royalty, now has a deal with Gucci" (2017) · Daily Front Row — "Gucci Partners with Dapper Dan to Open His Own Harlem Atelier" (2018) · Britannica — "Virgil Abloh: Biography, Off-White, Louis Vuitton" · Acclaim — "Virgil Abloh's first Louis Vuitton collection outsold the 2017 Supreme collab"

